Entrevista sobre Livro Didático

Leia a entrevista de Claudemir D. de Andrade*, sobre o mercado de livros didáticos

Profissão Editor: O que é considerado mercado de livros didáticos (inclui livros para graduação, por exemplo)?

Claudemir D. de Andrade: Normalmente, chamamos de didáticos os livros destinados aos componentes curriculares da Educação Básica. Embora alguns incluam entre os didáticos também os livros para cursos de nível superior, estes são chamados de universitários e CTP (científicos, técnicos e profissionais).

PE: Qual é a diferença entre livro didático e livro paradidático?

CA: O livro didático é um material de apoio ao professor e ao aluno, sendo elaborado por disciplina, ou componente curricular. O livro paradidático é uma obra, geralmente temática, que complementa ou amplia um assunto ou tema estudado no livro didático ou no currículo da escola.

PE: O que é PNLD e PNBE? Como funcionam esses programas?

CA: PNLD é Programa Nacional do Livro Didático. Trata-se de programa periódico de compra de livros didáticos pelo MEC para distribuição à rede pública de ensino; é realizado a cada três anos para cada ciclo de ensino. É preciso mencionar ainda o PNLD é dividido em quatro modalidades: tipo 1 (primeiro ano), tipo 2 (segundo ao quinto ano), tipo 3 (sexto ao nono ano) e tipo 4 (Ensino Médio). PNBE é Programa Nacional Biblioteca da Escola. Ele se subdivide em três: PNBE Temático, PNBE Periódicos e PBNE do Professor. São obras de literatura para todos os segmentos de ensino com o objetivo de incentivar a leitura; além disso, contempla obras para a formação e a atualização de professores.

PE: Qual é a importância desses programas para o mercado didático e para o mercado editorial como um todo?

CA: Em primeiro lugar, esses programas contribuem imensamente para o desenvolvimento do ensino brasileiro, sobretudo para a rede pública. É preciso lembrar que em muitas residências o único livro existente é aquele doado pelo Governo, ou a Bíblia! As obras são rigorosamente avaliadas pelos melhores especialistas em cada área. Para o mercado editorial como um todo, a meu ver, a importância está nas cifras resultantes desses programas para desde pequenas editoras às de grande porte. Esses programas possibilitam que as editoras se “segurem” por um bom tempo e administrem seus catálogos e suas programações.

PE: Quais são as principais editoras brasileiras que atuam no mercado de livros didáticos?

CA: As maiores são Somos Educação (Ática, Scipione e Saraiva), Moderna, FTD, SM (vem crescendo rapidamente no segmento didáticos), IBEP, Editora do Brasil.

PE: Onde se vende o livro didático (apenas na escola)?

CA: Não apenas na escola, mas também em livrarias. No início do ano letivo, as grandes redes de livrarias costumam criar um setor apenas para venda de livros didáticos.

PE: Como funciona a divulgação do livro didático?

CA: Cada editora tem as suas estratégias. O fundamental é encontrar um meio de contato direto e quase permanente com o professor, com o gestor/diretor, com a escola, para que seus livros sejam adotados.

PE: Como é o processo de contratação do autor de um livro didático?

CA: Em primeiro lugar, é necessário deixar claro que o livro didático é muito diferente dos outros livros (literatura, trade, autoajuda etc.), por exemplo, quanto à sua “durabilidade”; uma coleção de sucesso fica no mínimo vinte anos à venda. Quanto à contratação de um autor, normalmente é um professor com quem a editora já mantém uma relação, prestando algum tipo de serviço, como leitura crítica, elaboração de textos para guias ou até palestras para divulgação de outras obras ou de algum produto, entre outras funções.

PE: Explique o passo a passo da produção editorial de um livro didático.

CA: Esta pergunta é muito difícil porque cada caso é um caso e o processo varia muito de uma coleção para outra, além de sempre ser necessário fazer mudanças ao longo do processo, para que a obra seja finalizada no prazo estimado; do contrário, perde-se no mínimo um ano de venda. Em resumo, o que nunca pode deixar de ser feito é: um quadro geral com a distribuição dos conteúdos ao longo da coleção nos vários anos do componente curricular, uma unidade ou um capítulo modelo com projeto gráfico muito bem-definido, com previsão de todas as seções que aparecerão em cada capítulo; além disso, um cronograma bem-feito para todos os departamentos envolvidos em todas as etapas do processo, da elaboração de originais ao fechamento dos PDFs; e, por fim, o acompanhamento rigoroso desse cronograma para que todos os prazos sejam cumpridos ou, no caso de ocorrer falha em alguma etapa, para que haja tempo de encontrar nova solução, sem que a data prevista para o lançamento seja prejudicada.

 *Claudemir D. de Andrade

Formado em Letras pela Unesp – Araraquara, com Especialização em Tradução (Francês-Português) pela USP. Foi professor e, desde 1991, trabalha como editor, tendo atuado com livros universitários nas áreas de Ciências Humanas e de Educação (Editora Ática) e, a partir do início dos anos 2000, voltou-se para o mercado de livros didáticos como autônomo. Desde 2010, é editor de Língua Portuguesa na Editora Moderna, atuando em obras coletivas desse componente curricular.

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