Entrevista sobre Inteligência de Negócios

Gerenciamento de projetos, Business Analysis e treinamentos em performance para o mercado do livro – Entrevistamos Bruno Mendes*, da empresa #coisadelivreiro®, e ele nos deu dicas essenciais para boa gestão de negócios no mercado de livros

Profissão Editor: A sua empresa, #coisadelivreiro, presta consultorias para editoras e livrarias em Business Intelligence. No que consiste, exatamente, o BI?

Bruno Mendes: O termo BI (Business Intelligence), aparece em diferentes momentos na história, mas, factualmente, tem sido utilizado com bastante frequência nos últimos anos. O aumento do uso da terminologia está diretamente ligado ao volume de fontes e métodos de análise de dados. Atualmente, tudo o que fazemos passiva ou ativamente gera informações que podem ser coletadas, organizadas e analisadas. Todos esses dados servem de base analítica para tomada de decisões.

Para se ter uma ideia prática, por meio do simples ato de checar o preço em terminal de consulta em uma livraria, nossa empresa consegue ter um mapa comportamental da intenção e demanda de uma determinada obra/gênero/autor. Conseguimos, ainda, saber quais as áreas da loja são as mais movimentadas e as que possuem menor fluxo de passagem. Tudo isso corrobora para um cenário mais preciso de reposições, negociações com fornecedores e estoque. Essa é a grandeza do BI. Por meio de pequenos gestos conseguimos extrair insights valiosos de ponta a ponta. No entanto, se me perguntarem qual o maior benefício do BI, digo, sem dúvidas: é a construção de uma consciência analítica e posteriormente uma cultura de análise ampla. Ver pessoas felizes e motivadas pelo sucesso e assertividade em seus projetos é algo único.

PE: Qual a importância de se ter uma visão holística no negócio do livro?

BM: É essencial. Acredito que o cartesianismo cego está dando seus últimos suspiros de vida. Pela primeira vez, vivenciamos uma revolução industrial na qual sabemos que isso está acontecendo. A era da informação tem nos proporcionado uma visão mais ampla das coisas, e isso é incrível. Com o livro e sua cadeia produtiva não poderia ser diferente. Não importa se a editora quer ou não participar desse momento e compreender os outros mercados, também não importará se o livreiro quer abrir ou não uma loja online da sua livraria tradicional. As informações sobre todos eles estão disponíveis e conectadas em rede. Hoje, basta alguém entrar em um ponto comercial com smartphone em seu bolso… isso será o suficiente para que possamos obter informações sobre o fluxo de pessoas, a qualidade do atendimento e os diferenciais daquele local. Essas informações servirão de base para outros negócios, mercados e pessoas. O máximo que se consegue ignorando a influência do mercado global e da cadeia de conhecimento conectada é falir mais rapidamente. E já que estamos falando sobre livros, recomendo The Fourth Industrial Revolution, de Klaus Schwab, para compreender um pouco sobre o momento e como o holístico nunca fez tanto sentido como agora.

PE: Outra frente da sua empresa é o Gestão de Projetos. Como funciona isso no mercado atualmente e como funcionaria de uma forma mais eficiente, considerando empresas de sucesso?

BM: Dentro do mercado de livros ainda não funciona e honestamente adoraria dizer que minha concorrência está acirrada. Estaria mentindo. As pessoas compreendem pouco sobre o assunto e ainda menos quando partimos para o mercado de livros. Mas, acredite, não é uma exclusividade do nosso país. Em recente conversa com o consultor americano Michael Covington, estava me “queixando” sobre o mercado editorial brasileiro e perguntei como o mercado de livros em seu país estava digerindo as metodologias de projetos, e ele foi taxativo: “You’re not alone!” (risos).

Mas vamos lá. Primeiramente, é preciso definir o termo projeto para não confundirmos com outros tipos de ação.

Projeto é um conjunto de atividades temporárias, realizadas em grupo, destinadas a produzir um produto, serviço ou resultado únicos (referência PMBOK, 5. ed.). Dito isso, ao realizar um projeto, há alguns caminhos mais seguros a se percorrer do que outros. Aí que nasce o gerenciamento consciente de projetos. São práticas testadas e executadas exaustivamente por outras pessoas e que foram disponibilizadas para estudo e aplicação em outros projetos.

Existem pessoas que se dedicam exclusivamente ao gerenciamento de projetos. Um gerente de projeto guia e coordena as ações de uma equipe para que o objetivo seja cumprido da melhor maneira possível. A melhor maneira possível significa: diminuição de riscos, custos e entrega do resultado. Para que nosso mercado funcionasse de maneira mais eficiente, seria necessário que todos tivessem um Gerente de Projetos compondo a equipe. Seja ele fixo ou terceirizado. O desperdício de recursos das editoras e das livrarias são gigantescos por falta de uma gestão adequada dos projetos. Chegamos a atender casos em que o cliente cresceu cerca de 600% em um ano depois de estruturar área de projetos em sua editora. E, hoje, não conheço uma empresa relevante globalmente que não possua um escritório de projetos em suas dependências.

PE: Dentro da visão holística do mercado, não podemos deixar de pensar nas pessoas. A consultoria #coisadelivreiro trata disso também? Caso trate, como é feito esse trabalho dentro das empresas?

BM: Absolutamente sim. Fui gestor de mais 125 colaboradores diretos e mais alguns indiretamente quando trabalhei em uma grande varejista do livro. Meu encantamento com o mercado de livros existe em decorrência das pessoas que encontrei nesse caminho. Evidentemente, quando criei o #coisadelivreiro sozinho, senti uma solidão absurda (risos e lágrimas). Acredito que, por esse motivo, as pessoas que entram hoje para trabalhar no #coisadelivreiro e riem ao ver, por exemplo, que eu postava mensagens de boas práticas e produtividade para uma vida mais feliz  em nossa intranet, mesmo quando só existia um colaborador: eu.

O que quero dizer com isso? É que além de maluco, criei essa empresa para receber e treinar pessoas que queiram ser mais produtivas, eficientes e relevantes dentro do mercado de livros. Pessoas, por sinal, são 90% desse processo. Então, sim, temos uma cultura organizacional com enfoque muito forte em colaboração, produtividade e eficiência sem stress.

Com relação às nossas soluções para o mercado voltadas para pessoas, é muito bacana falar disso, pois envolve tudo o que praticamos diariamente. Oferecemos treinamentos para equipe de vendas, comercial, editorial e executivos. Usamos a metodologia de gerenciamento do tempo e produtividade Getting Things Done (GTD) desenvolvida por David Allen para nortear sempre o que estamos passando, ou seja, além das práticas comuns aos treinamentos, ensinamos as pessoas a lidarem com a alta carga de informações e stress. A ideia é trabalhar em alta performance, equilibrando o volume de informações que você recebe, tendo uma mente tranquila. Outro aspecto que desenvolvemos e trabalhamos fortemente nas empresas é a comunicação. Criamos padrões de comunicação por meio de ferramentas empresariais e treinamos do corpo executivo ao operacional. Esse é um aspecto incrível de se trabalhar e sempre gera resultados positivos. Nesse ponto, temos um parceiro de peso que nos ensina diariamente a transformar a tecnologia em uma grande aliada na gestão da comunicação, a Microsoft.

PE: Agora uma pergunta mais genérica: o que falta em nosso mercado para que ele se torne mais profissionalizado?

BM: Consciência analítica, planejamento, tempo e paixão. As pessoas estão sempre apagando incêndios e correndo de um lado para o outro. A falta de planejamento mínimo faz os profissionais viverem entre êxtase do sucesso e sentimento de fracasso. Sei que muitos passam por isso. Por esse motivo, não vou pontuar algo que coletivamente possa-se fazer para profissionalizarmos o nosso mercado. Acredito que se um profissional entende esses fatores dentro da sua organização e em sua vida, ele está minimamente um pouco mais gabaritado para trabalhar em alta performance, feliz e, consequentemente, de maneira mais profissional. Nesse caso, de um e um, chega-se mais rápido do que imaginar todos chegando juntos.

 *Bruno Mendes é Gerente de Projetos especializado em Business Analysis, empreendedor, consultor e agente de aquisições  para o mercado de livros. Trabalha no segmento há mais de 10 anos. Durante esse período, protagonizou e participou de cases de sucesso, como o primeiro ano de implementação da Kobo no Brasil, abertura e expansão de grandes lojas da rede de livrarias Cultura e a estruturação administrativa, logística e comercial da editora DarkSide Books.

Há um ano, fundou a startup #coisadelivreiro®. A empresa é especializada em gerenciamento de projetos, Business Analysis e treinamentos em performance para cadeia do livro. Atende diversos clientes em todo o território nacional e nos Estados Unidos. Concomitantemente, é colunista no site especializado no mercado editorial PublishNews, onde escreve sobre novas metodologias aplicadas ao mercado livreiro e editorial.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>