Entrevista sobre Finanças para o Mercado do Livro com André Castro

Saber como gastar o dinheiro de sua editora ou livraria é fundamental para a sobrevivência do seu negócio.

Convidamos André Castro*, diretor da Casa Educação, para falar sobre o assunto.

Profissão Editor: Quais são as subáreas fundamentais no financeiro de uma editora e do que trata cada uma delas?

André Castro: As áreas financeiras de uma editora não diferem de uma empresa convencional. Todas as empresas devem possuir um setor financeiro que desenvolva as seguintes atividades: controle bancário (cuida da movimentação da conta-corrente), planejamento financeiro (elaboração do fluxo de caixa real e previsto), contas a receber (controla o recebimento das receitas), contas a pagar (controla os pagamentos) e faturamento (realiza a emissão das notas fiscais de venda).

PE: Qual os principais gargalos do nosso mercado no âmbito financeiro?

AC: Sem dúvida alguma é o investimento em capital de giro. Abrir uma editora é muito fácil, ganhar dinheiro com ela é que é difícil. É necessário um dinheiro considerável para investir em estoque, o que é agravado pela política de consignação. Se somarmos o período do início da produção de um livro até o início do recebimento das vendas, muitos dias se passam. Se o gestor não souber administrar bem o seu fluxo de caixa, o risco de quebrar é grande; o que só se agrava com as altas taxas de juros praticadas no Brasil. É muito caro contar com capital de terceiros (bancos) para empreender em nosso país.

PE: O que é fluxo de caixa e como fazer um bom controle disso numa editora?

AC: Fluxo de caixa é controle financeiro mais fácil de ser feito. Muito mais fácil do que o Balanço Patrimonial e que a Demonstração de Resultado do Exercício, ambos controles que exigem domínio das técnicas contábeis. Já o fluxo de caixa não. Fluxo de caixa é tudo o que empresa recebe menos o que a empresa paga. Para fazer o controle é muito simples: basta pegar o extrato bancário e analisar tudo que foi pago e tudo o que foi recebido.

O que complica mais é fazer a previsão de Fluxo de Caixa. É neste ponto que as empresas normalmente falham. Para fazer isso é necessário estimar quanto a empresa vai pagar e receber no futuro, levando em consideração sua estimativa de venda e de pagamentos. Minhas dicas para um bom controle são os seguintes:

  • Ser muito conservador na estimativa das vendas. Não colocar na previsão que as vendas serão espetaculares.

  • Ter um controle muito rígido dos custos fixos. É muito difícil cortar custo fixo, então pense muito antes de aumentá-lo.

  • Ter um controle muito grande na produção dos livros. Atraso no lançamento tem um grande impacto nas finanças da editora.

  • Se tiver em um momento financeiro complicado, priorize as reimpressões. É mais garantido a venda de um livro que já tem algum sucesso do que outro que ainda é uma incógnita.

  • Tenha sempre uma projeção de caixa semanal, mensal, trimestral e semestral. E importante: sempre mantenha essas projeções atualizadas.

PE: O que deve ser considerado para se fazer um bom planejamento financeiro?

AC: Penso que duas coisas são importantes. Em primeiro lugar, ter sempre as informações corretas. Como estão se comportando as vendas, qual o prazo real de recebimento, quais são as despesas e em quantos dias elas são pagas. Outro ponto importante é ser conservador. Não é porque você torce para que seus livros sejam um sucesso que você deve colocar isso na previsão. Deixe a paixão de lado na hora de planejar o fluxo de caixa.

PE: Basicamente, como se calcula o preço de capa de um livro?

AC: Olhando o mercado. O preço do seu livro será aquele que o mercado pratica, levando em consideração o público a que ele se destina. Por exemplo, um livro de autoajuda tem um preço médio inferior a um livro didático ou de negócios. Para o cliente não importa o quanto você gastou para fazer o livro, o que importa é o valor que ele acha justo. Na hora de se estabelecer esse preço é importante consultar o setor de vendas e/ou de marketing. Preço é uma decisão de marketing não de finanças. O que o financeiro pode e deve fazer é impedir a compra de um livro inviável.

PE: O que nosso mercado pose fazer para sobreviver financeiramente nos tempos de crise?

AC: As taxas de juros estão muito elevadas e as vendas, declinantes. Em momentos como esse o importante é manter o fluxo de caixa positivo para não ter que recorrer a capital de terceiros. Para isso, deve-se cortar os custos fixos ao mínimo necessário e reduzir o número de lançamentos. A crise vai passar mas para que estejamos vivos quando a bonança retornar é preciso reduzir a estrutura.

*André Castro é pós-graduado em Management pela PUC-RJ e em Finanças Corporativas pelo IBMEC. Possui graduação em Ciências Contábeis pela UFRJ e cursou o Stanford Publishing Courses for Professionals na Stanford University. Tem mais de 20 anos de experiência no mercado editorial. Ocupou cargos executivos na Ediouro Publicações e na HSM do Brasil, onde criou a HSM Editora. Atualmente é diretor da Casa Educação e um dos coordenadores do MBA em Book Publishing.

A Casa Educação é uma empresa voltada  ao desenvolvimento de conteúdo para profissionais. Atua na área de Gestão, Editorial e Moda. Possui cursos livres e regulados, entre eles o MBA em Book Publishing. Publica os livros e a revista HSM Management.

http://www.casaeducacao.com.br/

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