Identidade Secreta: Ghost Writer

Convidamos a jornalista e escritora Joyce Moysés* para falarmos sobre a atividade de ghost writer

O trabalho de ghostwriter consiste em escrever o livro do autor, com o autor. É uma das atividades que desenvolvo como jornalista, com potencial enorme de crescimento. Afinal, se todo mundo na vida quiser plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, olha quanta gente vai precisar de um ghost writer para realizar o terceiro plano!

Eu não posso dizer como outros ghost writers trabalham, mas vou contar um pouco da forma como dou vida ao livro de altos executivos e empresários, redigindo com excelência o conteúdo que eles querem transmitir ao seu público. Eles me contratam basicamente por duas razões: não estão tão treinados a escrever bem, organizar seu turbilhão de ideias de forma atraente (isso realmente exige técnica) ou não têm tempo. Comparo a fazer reforma na sua casa. Talvez você consiga realizar isso sozinho, mas com a assessoria de um arquiteto o resultado tenderá a ser mil vezes melhor, com economia de tempo, energia e dinheiro. E a casa será sua, não do arquiteto.

Já fui ghost de um empresário dono de um livro superelogiado. O livro nasceu após duas tardes em que fui ouvindo sua história de vida e trabalho enquanto saboreávamos um café fumegante com biscoitos, mais um almoço que tivemos na cozinha da empresa dele. Em um mês e uma semana, o texto final estava nas mãos da editora. Um tempo curtíssimo, você deve ter pensado. E realmente fiquei exausta– não aconselho fazer um livro num prazo tão curto. Um prazo de dois meses e meio a três meses está de bom tamanho.

Para detalhar um pouco a maneira como vejo, sinto e pratico essa atividade, descrevo alguns pontos que considero importantes:

Como escolher um ghostwriter: se você for contratar um para chamar de seu, analise o currículo, a empatia com seu tema, e se inspira confiança e tem responsabilidade. Dominar o assunto do livro não é essencial, mas ajuda!

Definição do escopo do trabalho: envolverá transcrições? Pesquisas? Revisões? O ghost precisará acompanhar o autor em algum evento? Terá que entrevistar outras pessoas?

Rotina de trabalho: é papel do ghost facilitar ao máximo a vida do autor, que não tem tempo. Para isso, precisa ter disponibilidade para se dedicar ao trabalho. Defino estas fases:

1. encontro presencial para testar a empatia e a confiança;

2. criação do roteiro, quando ainda não há, e aprovação;

3. cronograma de entrevistas;

4. entrega parcial dos capítulos ou total, conforme o combinado, em Word;

5. fase de ajustes no texto;

6. conclusão do trabalho do ghost, quando a editora cuidará da finalização do processo.

A ética que envolve o ghostwriting: isso é crucial. Digo que o livro que o ghost faz para o autor é como um filho. Sinto como se o autor me entregasse o filho dele para eu cuidar. Eu me entrego ao trabalho e tenho responsabilidade sobre cada palavra escrita, prevendo como os leitores entenderão. Como sou jornalista, tenho muita consciência da repercussão daquilo que escrevo e tomo vários cuidados, como o de não deixar nada dúbio, que possa causar má impressão. Também é importante manter sigilo sobre o conteúdo e a existência do livro até a publicação e guardar segredo sobre o que for comentado a mais e não entrará no livro. É uma relação de confiança. Outro ponto a destacar é que o ghost deve preservar a personalidade do autor nos textos, pois o livro é do autor, que precisa se reconhecer em cada página.

O contrato: garante que o trabalho será feito até o fim, e bem-feito. Garante confidencialidade de informações, reafirma valores e cronograma acertado, deixa claro que não há vínculo empregatício e outros detalhes de um contrato normal desse tipo. Ele dá tanto garantias ao autor quanto ao ghost, para que o trabalho evolua adequadamente, tranquilamente. Mas, sinceramente, tive casos em que acabei o livro antes de receber o contrato assinado pelo autor. Acima de tudo, é uma relação de confiança entre profissionais sérios e comprometidos. Por isso, a escolha certa é fundamental.

Quanto custa: há variáveis que interferem no preço, como o nível de experiência do ghost. Ele precisa ter bagagem, conhecimento, escrever bem e de uma forma que os outros entendam a mensagem, além de saber interpretar bem a mensagem do autor. E isso tem valor. O ghost também dedica muito tempo, precisa se adequar à agenda do autor, num trabalho que dura meses. Isso também tem valor. Se o prazo for bem curto, tem mais valor ainda. Outras variáveis são a quantidade de fitas para transcrever (eu costumo pagar alguém para esse trabalho mais braçal), os deslocamentos necessários, a facilidade ou não de expressão do autor e a maturidade do conteúdo que pretende colocar no livro. Também é preciso mensurar nesse orçamento o nível de pesquisas exigidas e se haverá entrevistas com outras pessoas. Para dar uma ideia, acredito que esteja numa faixa de 10 mil reais (ghost esforçado, mas com menos experiência nessa atividade) a 40 mil reais (ghost mais estrelado).

Onde encontrar ghost writers: por indicação de autores, das editoras, no LinkedIn… Mas é importante tomar alguns cuidados, como ocorre com qualquer categoria de profissionais. Há os que não terminam o livro, não escrevem tão bem assim, copiam trechos inteiros da internet… Por isso, pesquise bem, peça indicações e veja o que sua intuição diz. Observe pequenos detalhes: por exemplo, se responde ao seu e-mail rapidamente, se marca reunião sem enrolação, se a convivência com ele é agradável. Vocês serão parceiros de um projeto muito importante, com a sua assinatura, que não nasce da noite para o dia. Seu livro é seu filho, precisa ficar excelente para engrandecer (em vez de arranhar) sua reputação, inspirar outras pessoas com seu exemplo de vida e conhecimentos e ter uma vida útil de pelo menos cinco anos.

*Joyce Moysés, jornalista com 27 anos de experiência em comportamento, carreira e negócios, ghost writer para livros de altos executivos, escritora (com dois livros publicados), sócia-diretora da 1ª Edição Setorial, palestrante e consultora de temas femininos

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